
31.7.08
gosto de televisão trash

30.7.08
o mike patton é do seu filo.

2 cafés, sem idéias.
estou muito ansiosa. fico lendo à exaustão só pra chegar no final e ver o que acontece. aluguei um musical e passei todas as cenas de canto e dança. não esperei a comida esfriar e estou com uma ferida no céu da boca. ontem, as 21h30, me enfureci com o horário e resolvi que não ia mais sair de casa porque não tinha certeza de onde ir. quanta ansiedade. ansiedade pra que? não tenho planos. deve ser por isso. estou em hiato, sem planos, só folders.
preciso de um plano, urgente.
já já volto com planos.
salva-vidas
http://www.estantevirtual.com.br/
Se você não vê graça na vida, vá trabalhar. Você vai ficar pensando em folders e, quando não pensar, vai ser sagrado.
29.7.08
O alfabeto colorido preso em cima do quadro verde-escuro da escola não me cativava. Eu não queria saber daquilo. Nada do que eu queria ler era redondo daquele jeito. E, se estava exposto ao nariz de vinte crianças sujinhas, boa coisa não era. Eu queria ler o que meu pai escrevia e o que tinha dentro dos livros amarelados sem figuras. Eu queria ler o que não era dito por ninguém.
Escancarada minha vontade latente, minha mãe se sentiu orgulhosa. Ela ia às reuniões da escola e sentia pena quando a professora dizia que a Renata ou o Fernando não estavam conseguindo escrever nada além do nome. Que pena, que pena - das crianças, dos pais. Esses aí já deram seu atestado de burrice aos seis anos. De repente, são problemas
Larguei o homem dos hieróglifos. Pedi que minha mãe que escrevesse nas folhas brancas do meu pai as coisas que ninguém dizia. E quanto mais ela escrevia, mais eu fazia contorcionismos pra ler, mais rápido e mais rápido. Tropeço nas letras, volto, como outras letras, droga, estraguei tudo, volto para o começo, tudo de novo, mais rápido, mais rápido, mais rápido. Ignoro qualquer pedido para ir mais devagar.
Uma vez, sentada na cozinha do apartamento da minha avó, enquanto a família inteira conversava na sala, minha mãe me passou um papel aonde lia-se “Vovó não gosta do Flávio porque ele almoça aqui todos os dias e come muito”. Flávio era o namorado de 15 anos da minha prima de 15 anos. “Juliana quando era pequena fazia shows pra família e era muito chato”. Juliana é a namorada de Flávio. “Tia Renata bebe muita cerveja”. Assim, junto com minha progressão na leitura, minha mãe desabafava os anos de casamento convivendo com a família do meu pai, bêbados e chatos.
Aprendi a ler num tempo recorde, escrever idem.
Resolvi parar de falar e apenas enviar bilhetes. A primeira coisa que escrevi foi para minha empregada Rosemary: “eu fome”.
Depois disso, fiquei tão viciada em livros que deixei, de fato, de falar com as pessoas. Eu lia, desesperadamente, faminta pelas histórias dos outros, pela vida dos outros, pelas palavras dos outros. Eu tinha muito medo de pronunciar minhas próprias palavras, abrir a minha boca, contar minhas histórias. Mesmo criança, eu sabia que havia algo de errado nas minhas histórias.
28.7.08
Quem tem amigos faz uma banda. Quem é sozinho, escreve.
Aprendi a escrever mais rápido que o normal. Meu pai, advogado, sempre trazia muitos papéis para casa. Eram blocos e blocos de papel branco sem pauta protegidos por duas capas de papelão branco. Blocos e blocos com linhas de letras pequenas e geométricas. Se pareciam muito com pequenos hieróglifos – essa é a lembrança. Minhas lembranças são como aquela amiga muito querida que conta o que leu no jornal pela manhã e confunde de modo grotesco as porcentagens, e mesmo sabendo que os números estão errados, você acredita nela.
A escrita do homem diz muito sobre ele.
Os homens pré-históricos escreviam si próprios perseguindo animais extintos nas paredes das cavernas.
Os egípcios escreviam olhos, cobras e homens com cabeça de animal dentro dos túmulos triangulares.
Os gregos escreviam símbolos matemáticos que me reprovaram na 7ª série.
Os maias escreviam círculos.
Meu pai escrevia pequenos triângulos em linhas que deslizavam entre ascendências e descendências.
Eu olhava para o meu pai, um cara magro e cabeludo, preenchendo folhas e folhas com um movimento de mão que lembrava o de um maestro. Meu pai era como um grande maestro sem camisa e cueca samba-canção sentado na mesa de jantar da sala, embaixo de um lustre de cristal que refletia o papel de parede cor de sangue. Ele digladiava o adversário de quem o pagou para agir como um maestro em pleno dia de descanso divino. Deveria ser alguém muito importante para fazer meu pai contrariar Deus, criador de todas as coisas belas do mundo, no dia que Ele anunciou como o dia que Ele próprio iria abster-se de Suas tarefas. Nós nunca usamos aquela mesa. A mesa de jantar tinha como única finalidade servir o banquete de árvores mortas onde meu pai, um homem peludo, cabeludo e semi-nu, imprimia sua escrita. Eu assistia completamente ignorada, do final do corredor. Quando as folhas começavam a ganhar volume, eu me sentava ao lado dele e assistia o processo. Meu instinto dizia que era um banquete indigesto, mas que o sabor amargo fazia a boca se acostumar após algumas horas. Meu instinto também me dizia que esse seria o momento menos perigoso para me aproximar. E eu me deleitava, desde o início, assistindo ao surgimento daquelas linhas que continham mil segredos que eu ainda não sabia desvendar. O toque da caneta deixando um pequeno pontinho no papel significava que algo muito importante tinha sido dito.
Uns dois anos depois, eu aprendi. Podia ter sido antes, quem sabe.
Vendo aquele banquete na mesa de jantar, eu o implorei muitas vezes, com os olhos, para que me ensinasse.
27.7.08
2h49 da manhã, o telefone toca.
O transe coloca o aparelho encostado na orelha.
- Alo.......?
- Duda?
- Oi........
- Aonde você ta?
- Em casa.........
- HSKshkjshksjh mas você djhksdjwe93810239812 festa?
- É que choveu....
- SHjdhksdhskjfh. Urkwerçlektm daksdoee. Posso ir praí?
Eu abro a porta, ele me olha assustado, totalmente sóbrio. Pelo horário, imaginei que estava bêbado. Não reparei as ataduras na mão direita. Ele se queimou, diz. Foi fazer um drink pretensioso e flamejante e o fogo lambeu os últimos três dedos da mão. Ele provavelmente estava bêbado, mas o susto cortou o efeito. Pedi para ver, ele disse que não, estava nojento. Você está linda. Fiz sexo com ele com as mãos para cima.
Na manhã seguinte, contei a ele uma história nojenta de um machucado que tive na orelha. Achava machucados muito interessantes, desde que não fossem muito profundos. A imagem de cicatrizes a fascinava. A cicatriz é a marca indelével de quem viveu pra contar. Cada cicatriz é uma história. Ela não gosta de pessoas que causam suas próprias cicatrizes. Ela acredita que o ato não pode virar algo banal na única pele que temos. As cicatrizes devem ser feitas pelo que nos propomos a viver, senão, é como a falsidade ideológica.
Quando o conheci, ele fabricava suas próprias cicatrizes. Gostava de oferecer à mim seus atos dramáticos, seus cortes na barriga. Um dia, ele parou, talvez porque eu assistisse ao seu monólogo no maior estado de apatia. Eu sabia que ele era muito maior do que aquilo, e que ele estava pronto para deixar que a própria vida o marcasse, ao invés de enganar a si próprio em vinte e poucos anos de auto-flagelo.
Ele me ligou, eu já dormia. Acordei e fui abrir a porta. Ele me contou que havia se queimado sem querer, estava assustado. Eu o beijei nos lábios e o levei até minha cama.
Mostrou-me seus dedos inchados, com bolhas amarelas e gigantes, como eu nunca havia visto. Como se um monstro quisesse sair de dentro dele pelo mindinho.
Ao invés de qualquer variação do nojo e da repulsa, fui invadida por um desejo de satisfazê-lo e amá-lo. Eu te amo.
Fizemos sexo e ele dormiu como uma criança, enrolado no meu cobertor.

