2h49 da manhã, o telefone toca.
O transe coloca o aparelho encostado na orelha.
- Alo.......?
- Duda?
- Oi........
- Aonde você ta?
- Em casa.........
- HSKshkjshksjh mas você djhksdjwe93810239812 festa?
- É que choveu....
- SHjdhksdhskjfh. Urkwerçlektm daksdoee. Posso ir praí?
Eu abro a porta, ele me olha assustado, totalmente sóbrio. Pelo horário, imaginei que estava bêbado. Não reparei as ataduras na mão direita. Ele se queimou, diz. Foi fazer um drink pretensioso e flamejante e o fogo lambeu os últimos três dedos da mão. Ele provavelmente estava bêbado, mas o susto cortou o efeito. Pedi para ver, ele disse que não, estava nojento. Você está linda. Fiz sexo com ele com as mãos para cima.
Na manhã seguinte, contei a ele uma história nojenta de um machucado que tive na orelha. Achava machucados muito interessantes, desde que não fossem muito profundos. A imagem de cicatrizes a fascinava. A cicatriz é a marca indelével de quem viveu pra contar. Cada cicatriz é uma história. Ela não gosta de pessoas que causam suas próprias cicatrizes. Ela acredita que o ato não pode virar algo banal na única pele que temos. As cicatrizes devem ser feitas pelo que nos propomos a viver, senão, é como a falsidade ideológica.
Quando o conheci, ele fabricava suas próprias cicatrizes. Gostava de oferecer à mim seus atos dramáticos, seus cortes na barriga. Um dia, ele parou, talvez porque eu assistisse ao seu monólogo no maior estado de apatia. Eu sabia que ele era muito maior do que aquilo, e que ele estava pronto para deixar que a própria vida o marcasse, ao invés de enganar a si próprio em vinte e poucos anos de auto-flagelo.
Ele me ligou, eu já dormia. Acordei e fui abrir a porta. Ele me contou que havia se queimado sem querer, estava assustado. Eu o beijei nos lábios e o levei até minha cama.
Mostrou-me seus dedos inchados, com bolhas amarelas e gigantes, como eu nunca havia visto. Como se um monstro quisesse sair de dentro dele pelo mindinho.
Ao invés de qualquer variação do nojo e da repulsa, fui invadida por um desejo de satisfazê-lo e amá-lo. Eu te amo.
Fizemos sexo e ele dormiu como uma criança, enrolado no meu cobertor.

Um comentário:
fascinante...
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