O alfabeto colorido preso em cima do quadro verde-escuro da escola não me cativava. Eu não queria saber daquilo. Nada do que eu queria ler era redondo daquele jeito. E, se estava exposto ao nariz de vinte crianças sujinhas, boa coisa não era. Eu queria ler o que meu pai escrevia e o que tinha dentro dos livros amarelados sem figuras. Eu queria ler o que não era dito por ninguém.
Escancarada minha vontade latente, minha mãe se sentiu orgulhosa. Ela ia às reuniões da escola e sentia pena quando a professora dizia que a Renata ou o Fernando não estavam conseguindo escrever nada além do nome. Que pena, que pena - das crianças, dos pais. Esses aí já deram seu atestado de burrice aos seis anos. De repente, são problemas
Larguei o homem dos hieróglifos. Pedi que minha mãe que escrevesse nas folhas brancas do meu pai as coisas que ninguém dizia. E quanto mais ela escrevia, mais eu fazia contorcionismos pra ler, mais rápido e mais rápido. Tropeço nas letras, volto, como outras letras, droga, estraguei tudo, volto para o começo, tudo de novo, mais rápido, mais rápido, mais rápido. Ignoro qualquer pedido para ir mais devagar.
Uma vez, sentada na cozinha do apartamento da minha avó, enquanto a família inteira conversava na sala, minha mãe me passou um papel aonde lia-se “Vovó não gosta do Flávio porque ele almoça aqui todos os dias e come muito”. Flávio era o namorado de 15 anos da minha prima de 15 anos. “Juliana quando era pequena fazia shows pra família e era muito chato”. Juliana é a namorada de Flávio. “Tia Renata bebe muita cerveja”. Assim, junto com minha progressão na leitura, minha mãe desabafava os anos de casamento convivendo com a família do meu pai, bêbados e chatos.
Aprendi a ler num tempo recorde, escrever idem.
Resolvi parar de falar e apenas enviar bilhetes. A primeira coisa que escrevi foi para minha empregada Rosemary: “eu fome”.
Depois disso, fiquei tão viciada em livros que deixei, de fato, de falar com as pessoas. Eu lia, desesperadamente, faminta pelas histórias dos outros, pela vida dos outros, pelas palavras dos outros. Eu tinha muito medo de pronunciar minhas próprias palavras, abrir a minha boca, contar minhas histórias. Mesmo criança, eu sabia que havia algo de errado nas minhas histórias.

Um comentário:
Escrever é mais fácil, e a história dos outros sempre parecem mais interessante que as nossas...E muita das vezes os livros nos dizem coisas mais interessantes do que as pessoa.
Beijo!
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