28.7.08

Quem tem amigos faz uma banda. Quem é sozinho, escreve.

Aprendi a escrever mais rápido que o normal. Meu pai, advogado, sempre trazia muitos papéis para casa. Eram blocos e blocos de papel branco sem pauta protegidos por duas capas de papelão branco. Blocos e blocos com linhas de letras pequenas e geométricas. Se pareciam muito com pequenos hieróglifos – essa é a lembrança. Minhas lembranças são como aquela amiga muito querida que conta o que leu no jornal pela manhã e confunde de modo grotesco as porcentagens, e mesmo sabendo que os números estão errados, você acredita nela.


A escrita do homem diz muito sobre ele.

Os homens pré-históricos escreviam si próprios perseguindo animais extintos nas paredes das cavernas.

Os egípcios escreviam olhos, cobras e homens com cabeça de animal dentro dos túmulos triangulares.

Os gregos escreviam símbolos matemáticos que me reprovaram na 7ª série.

Os maias escreviam círculos.

Meu pai escrevia pequenos triângulos em linhas que deslizavam entre ascendências e descendências.

 

Eu olhava para o meu pai, um cara magro e cabeludo, preenchendo folhas e folhas com um movimento de mão que lembrava o de um maestro. Meu pai era como um grande maestro sem camisa e cueca samba-canção sentado na mesa de jantar da sala, embaixo de um lustre de cristal que refletia o papel de parede cor de sangue. Ele digladiava o adversário de quem o pagou para agir como um maestro em pleno dia de descanso divino. Deveria ser alguém muito importante para fazer meu pai contrariar Deus, criador de todas as coisas belas do mundo, no dia que Ele anunciou como o dia que Ele próprio iria abster-se de Suas tarefas. Nós nunca usamos aquela mesa. A mesa de jantar tinha como única finalidade servir o banquete de árvores mortas onde meu pai, um homem peludo, cabeludo e semi-nu, imprimia sua escrita. Eu assistia completamente ignorada, do final do corredor. Quando as folhas começavam a ganhar volume, eu me sentava ao lado dele e assistia o processo. Meu instinto dizia que era um banquete indigesto, mas que o sabor amargo fazia a boca se acostumar após algumas horas. Meu instinto também me dizia que esse seria o momento menos perigoso para me aproximar. E eu me deleitava, desde o início, assistindo ao surgimento daquelas linhas que continham mil segredos que eu ainda não sabia desvendar. O toque da caneta deixando um pequeno pontinho no papel significava que algo muito importante tinha sido dito.

 Quando viajávamos para nossa casa de praia, eu me permitia sentar ao lado daquele maestro cabeludo, acompanhada de uma inocente folha de papel furtada de seus enormes blocos. Tentava imitá-lo. Eu imitava aquelas figuras e acreditava que havia dito algo, algo que ele estava dizendo também, e por isso, poderia ser tão importante quanto quem o pagou para ser maestro. Ao final do trabalho, eu mostrava a ele minha folha com o que havia copiado, na certeza de que ele me olharia com orgulho e justificaria meu fascínio por suas mãos velozes. Ele dizia que ali não tinha nada. Dia, outro dia, nada, nada, nada. Um dia, na escola, ele falava.

Uns dois anos depois, eu aprendi. Podia ter sido antes, quem sabe.

Vendo aquele banquete na mesa de jantar, eu o implorei muitas vezes, com os olhos, para que me ensinasse.

5 comentários:

hardream disse...

eu ainda mantenho meu segredo.
sei lá, preciso desse espaço pra falar de tudo que não falo mas que lateja em mim dia-a-dia. ando achando todo mundo meio sem conteúdo, até os amigos deixando a desejar...

o pai advogado mandou bem nos hieróglifos, despertou a escrita na filha com os jargões rebuscados do direito. ainda bem que você não entendia. sério.

Senhorita K. Brechó disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Senhorita K. Brechó disse...

Muito bom o texto. Suas impressões e o modo como as coloca no papel são de um escritor nato. Leva muito jeito... Vou voltar aqui mais vezes. Fez bem em divulgar seu blog.
abs,

Ivi Derzi disse...

Tem segredos que merecem ser compartilhados. Gostei do seu blog.
Ah, e sei fazer layouts, pouco, mas sei alguma coisa, se precisar...
Ta aí porque nunca tive uma banda...

Beijo.

Ivi Derzi disse...

Fui tirar coragem pra sair do Rio, hahaha.

O livro em cima da cama é "história da psicologia" daqueles que te obrigam a comprar no primeiro período e eu comprei com a ilusão de que ele fosse me ensinar muito!

obs.: fiz o teste que tinha aí de postagens anteriores, acho que tenho meu atestado de insanidade!

Beijo!